1986: O Ano Mágico do Heavy Metal
Poucos anos na história da música pesada tiveram um impacto tão profundo quanto 1986. Quatro décadas depois, aquele período continua sendo lembrado como um divisor de águas para o heavy metal e seus subgêneros. Foi o ano em que o metal tradicional alcançou novos patamares de sofisticação, o thrash metal explodiu mundialmente, enquanto death e black metal davam seus primeiros passos rumo à consolidação. Para muitos fãs e historiadores, 1986 representa o verdadeiro auge criativo da década de ouro do metal.

O Heavy Metal Tradicional em Seu Auge
Enquanto os estilos extremos ganhavam força, o heavy metal clássico continuava produzindo obras-primas. O lendário álbum Somewhere in Time, da Iron Maiden, trouxe uma abordagem mais melódica e tecnológica, incorporando guitarras sintetizadas sem perder a identidade épica da banda. No mesmo ano, o Candlemass lançou Epicus Doomicus Metallicus, obra que praticamente definiu os padrões do doom metal moderno e influenciaria gerações futuras.
Outro destaque foi Orgasmatron, da Motörhead, que mostrou que a banda de Lemmy Kilmister continuava sendo uma das maiores forças do metal mundial.
O Ano em Que o Thrash Metal Conquistou o Mundo
Se existe um gênero que definiu 1986, esse gênero foi o thrash metal. Em poucos meses, três álbuns mudariam para sempre a história da música pesada.
Em março chegou Master of Puppets, da Metallica. Considerado por muitos o maior álbum de metal de todos os tempos, o disco elevou o nível técnico e composicional do gênero a um patamar até então inimaginável.
Meses depois, a Slayer lançou Reign in Blood, uma verdadeira explosão sonora que redefiniu os limites da velocidade e agressividade. Com apenas 29 minutos de duração, o álbum tornou-se uma referência obrigatória para praticamente todas as bandas extremas que surgiriam depois.
Fechando a tríade histórica, a Megadeth apresentou Peace Sells... But Who's Buying?, combinando técnica refinada, crítica social e riffs memoráveis. O disco consolidou definitivamente Dave Mustaine como um dos maiores compositores do metal.
Mas o ano não viveu apenas dos "Big Four". A Kreator lançou o brutal Pleasure to Kill, enquanto a Dark Angel apresentou Darkness Descends, obra frequentemente apontada como uma das maiores influências para o death metal dos anos seguintes.

Death Metal: O Nascimento de Uma Nova Brutalidade
Embora o death metal ainda estivesse em sua infância, 1986 foi um ano fundamental para a construção do gênero.
A Possessed lançou Beyond the Gates, dando sequência ao legado iniciado com Seven Churches, álbum de 1985 frequentemente citado como um dos marcos fundadores do death metal. O som mais técnico e agressivo da banda ajudou a moldar a identidade do estilo que explodiria no final da década.
Na mesma época, demos e gravações iniciais de grupos como Morbid Angel já circulavam no underground, preparando terreno para a revolução que viria nos anos seguintes. Entre os músicos da cena extrema, ficava cada vez mais evidente que algo novo e mais brutal estava surgindo.
Black Metal: As Trevas Ganham Forma
O black metal de segunda geração ainda estava distante, mas 1986 foi essencial para o desenvolvimento das bases do gênero.
O grande destaque foi Under the Sign of the Black Mark, da Bathory. O álbum elevou o nível de obscuridade, atmosfera e agressividade do metal extremo, tornando-se uma influência direta para praticamente toda a cena black metal que surgiria na Noruega alguns anos depois.
Ao mesmo tempo, o legado da Celtic Frost continuava crescendo. Seus lançamentos e relançamentos daquele período ajudaram a consolidar uma sonoridade sombria que serviria de inspiração tanto para o black quanto para o death metal.

Um Ano Que Nunca Será Repetido
A combinação de Master of Puppets, Reign in Blood, Peace Sells... But Who's Buying?, Somewhere in Time, Pleasure to Kill, Darkness Descends, Epicus Doomicus Metallicus e Under the Sign of the Black Mark faz de 1986 um ano praticamente impossível de ser igualado. Em apenas doze meses, o metal evoluiu em diversas direções simultaneamente, criando as bases para quase tudo o que ouviríamos nas décadas seguintes.
Não é exagero afirmar que, se o heavy metal possui uma "idade de ouro", ela atingiu seu ponto máximo em 1986. Um ano mágico, inesquecível e eternamente reverenciado pelos verdadeiros metalheads. 🤘
O Brasil Entra no Mapa do Metal Extremo
Se 1986 foi um ano histórico para o metal mundial, também representou um marco para o metal brasileiro. Em um cenário ainda dominado por produções independentes e recursos limitados, bandas nacionais lançaram trabalhos que ajudariam a construir a reputação do Brasil como um dos maiores celeiros do metal extremo.
O principal destaque foi Morbid Visions, álbum de estreia da banda brasileira Sepultura. Lançado pela Cogumelo Records em novembro de 1986, o disco apresentou uma mistura crua e agressiva de thrash, death e black metal primitivo, influenciada por nomes como Venom, Hellhammer e Celtic Frost. Hoje, o álbum é amplamente reconhecido como uma das gravações mais importantes da história do metal extremo latino-americano.
Faixas como "Troops of Doom", "War" e "Morbid Visions" ajudaram a transformar o quarteto de Belo Horizonte em referência do underground internacional. Décadas depois, Max e Igor Cavalera continuariam revisitando esse material em turnês e regravações, demonstrando a relevância histórica do álbum.
Outro lançamento fundamental daquele ano foi Bloody Vengeance, da banda santista Vulcano. Considerado um dos álbuns mais influentes da primeira geração do metal extremo brasileiro, o trabalho apresentou uma combinação feroz de thrash, death e black metal embrionário, tornando-se referência para inúmeras bandas sul-americanas.
Além deles, grupos como Sarcófago, Holocausto e Mutilator já movimentavam a cena underground mineira através de demos, shows e fanzines, preparando o terreno para a explosão do metal extremo nacional nos anos seguintes. O movimento surgido em Belo Horizonte durante a segunda metade dos anos 80 seria posteriormente reconhecido como uma das cenas mais influentes da história do metal mundial.
Discos Essenciais de 1986
Heavy Metal Tradicional
Somewhere in Time – Iron Maiden
Orgasmatron – Motörhead
Epicus Doomicus Metallicus – Candlemass
Thrash Metal
Master of Puppets – Metallica
Reign in Blood – Slayer
Peace Sells... But Who's Buying? – Megadeth
Pleasure to Kill – Kreator
Darkness Descends – Dark Angel
Death Metal
Beyond the Gates – Possessed
Morbid Visions – Sepultura
Black Metal
Under the Sign of the Black Mark – Bathory
Bloody Vengeance – Vulcano
Com lançamentos históricos nos Estados Unidos, Europa e também no Brasil, 1986 não foi apenas um grande ano para o heavy metal. Foi o ano em que os alicerces do metal moderno foram definitivamente construídos, consolidando uma geração de bandas que continua influenciando músicos e fãs quarenta anos depois.











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