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Entre o trabalho e o palco: Quando os músicos do Rock e Metal têm uma "Vida Normal"

Entre o trabalho e o palco: Quando os músicos do Rock e Metal têm uma "Vida Normal"

 

Professores, pilotos, desenhistas, funcionários dos Correios e outros profissionais que, depois do expediente, vestem a camisa da banda e sobem ao palco

 

Existe uma imagem clássica do músico de rock: cabelos compridos, jaqueta de couro, guitarra nas costas, noites em claro, viagens e palcos lotados.

 

Mas existe uma realidade bem menos glamourosa — e talvez muito mais interessante.

 

Por trás de muitos dos grandes nomes do rock, punk e heavy metal existe alguém que também precisa trabalhar, cumprir horários, pagar contas e exercer uma profissão completamente diferente daquela que o público associa ao artista.

 

E isso não acontece somente com bandas desconhecidas do underground.

 

Alguns músicos extremamente respeitados mundialmente já trabalharam — e alguns ainda trabalham — em profissões que poderiam ser consideradas absolutamente comuns.

 

Do professor universitário ao funcionário dos Correios. Do desenhista técnico ao piloto de avião.

 

Durante o dia, profissão. À noite, rock 'n' roll.

 

FENRIZ: DO BLACK METAL AOS CORREIOS

 

 

Poucos exemplos são tão emblemáticos quanto Gylve "Fenriz" Nagell, baterista, guitarrista e vocalista do Darkthrone.

 

Um dos nomes fundamentais da história do black metal norueguês, Fenriz construiu uma carreira baseada no underground, na independência e em uma postura praticamente antagônica ao conceito tradicional de rockstar.

 

Durante muitos anos, entretanto, sua rotina também incluiu um trabalho nos serviços postais da Noruega.

 

Fenriz já explicou em entrevistas que trabalhou durante décadas na área postal, enquanto paralelamente mantinha sua intensa atividade musical. O emprego também lhe proporcionava algo valioso: tempo para ouvir música e continuar pesquisando o underground.

 

É uma imagem curiosa: enquanto milhões de pessoas enxergavam Fenriz como um dos personagens mais importantes do black metal, ele poderia perfeitamente estar cumprindo seu expediente e trabalhando com correspondências.

 

Depois do trabalho?

 

Darkthrone.

 

NOCTURNO CULTO: PROFESSOR E ÍCONE DO BLACK METAL

 

 

Seu companheiro de Darkthrone, Nocturno Culto, também possui uma história semelhante.

 

O vocalista e guitarrista trabalhou como professor, demonstrando que a vida de um dos nomes mais importantes do black metal norueguês não se resumia a estúdios, ensaios e shows.

 

É justamente essa contradição que torna esses personagens tão interessantes.

 

De um lado, o professor.

 

Do outro, uma das vozes responsáveis por alguns dos trabalhos mais influentes e agressivos da história do black metal.

 

TOMAS LINDBERG: DEATH METAL E SALA DE AULA

 

 

Se existe uma profissão que parece distante do death metal, provavelmente é a de professor.

 

Mas Tomas Lindberg, vocalista do At the Gates, provou que essas duas atividades podem coexistir.

 

Lindberg possui formação acadêmica e já trabalhou como professor. Durante períodos de turnê, chegou a conciliar as obrigações escolares com a vida na estrada, levando trabalhos e atividades para corrigir.

 

É difícil imaginar um contraste maior.

 

Em determinado momento, Tomas está diante de uma multidão comandando uma das bandas mais importantes do death metal melódico.

 

No outro, está diante de alunos.

 

E talvez essa seja uma das melhores demonstrações de que o músico não precisa abandonar sua identidade profissional para viver o metal.

 

GREG GRAFFIN: O PUNK QUE VIROU DOUTOR

 

 

Se existe um caso que praticamente merece uma categoria própria, é o de Greg Graffin, vocalista e fundador do Bad Religion.

 

Graffin não é simplesmente um músico que possui uma segunda profissão.

 

Ele construiu uma respeitável carreira acadêmica.

 

O vocalista do Bad Religion possui doutorado em zoologia pela Cornell University e já lecionou ciências da vida na UCLA e na própria Cornell.

 

Durante determinados períodos, sua rotina chegou a ser literalmente dividida entre duas vidas.

 

De manhã, professor.

 

De noite, músico.

 

Uma reportagem do Daily Bruin descreveu uma rotina em que Graffin passava o dia preparando aulas, encontrando alunos e corrigindo trabalhos e, posteriormente, seguia para o estúdio para gravar com o Bad Religion.

 

E existe um detalhe ainda mais interessante.

 

Quando o Bad Religion ainda não era uma banda financeiramente estabelecida, Graffin também trabalhou como técnico de som enquanto estudava na UCLA.

 

Ou seja, antes de se tornar o professor punk conhecido mundialmente, ele literalmente precisou ter um emprego para ajudar a pagar as contas.

 

O próprio Graffin sempre tratou a carreira acadêmica como algo importante em sua vida, afirmando que nunca quis abandonar os estudos simplesmente porque sua carreira musical estava crescendo.

 

Punk rock e ciência.

 

Duas áreas que, nas mãos de Greg Graffin, provaram combinar muito bem.

 

BRUCE DICKINSON: O PILOTO QUE TAMBÉM CANTA NO IRON MAIDEN

 

 

Talvez o exemplo mais famoso dessa lista seja Bruce Dickinson.

 

O vocalista do Iron Maiden não é exatamente o que podemos chamar de "músico com um bico para pagar as contas".

 

Ele se tornou piloto comercial.

 

Dickinson obteve licença para pilotar aeronaves e trabalhou como comandante de companhias aéreas. Durante a famosa turnê Somewhere Back in Time, ele chegou a pilotar o Boeing 757 personalizado que transportava o Iron Maiden, sua equipe e equipamentos.

 

A cena é surreal.

 

Bruce Dickinson entra no cockpit, veste o uniforme de comandante e conduz um avião com dezenas de toneladas de equipamentos.

 

Depois, desembarca, troca o uniforme pela roupa de palco, pega o microfone e começa:

 

"Run to the Hills!"

 

O mais curioso é que Dickinson realmente encarava a aviação como uma carreira paralela e chegou a trabalhar como piloto comercial mesmo durante períodos em que o Iron Maiden estava em atividade intensa.

 

Não é exatamente o emprego mais comum do mundo, mas é um dos exemplos mais impressionantes de um músico de heavy metal mantendo uma segunda carreira profissional.

 

STEVE HARRIS: ANTES DO IRON MAIDEN, UM DESENHISTA

 

 

Outro nome do Iron Maiden também tem uma história interessante.

 

Antes de transformar sua banda em uma das maiores instituições do heavy metal mundial, Steve Harris trabalhava como desenhista técnico na área de arquitetura.

 

O baixista e principal compositor do Maiden conciliava o emprego com suas primeiras bandas até decidir apostar definitivamente no projeto que se tornaria o Iron Maiden.

 

É interessante pensar que riffs como os de The Number of the Beast, Run to the Hills e Hallowed Be Thy Name ainda estavam no futuro quando Harris passava parte de seus dias trabalhando com desenhos técnicos.

 

Antes do palco gigantesco, houve o escritório.

 

Antes do Iron Maiden, houve o emprego.

 

E antes da lenda, houve um trabalhador tentando fazer sua banda acontecer.

 

TONY IOMMI: UM ACIDENTE NO TRABALHO QUE MUDOU O HEAVY METAL

 

 

Outro exemplo histórico vem de Tony Iommi, guitarrista e fundador do Black Sabbath.

 

Antes de se dedicar completamente à música, Iommi trabalhava em uma fábrica.

 

Foi justamente durante o trabalho que sofreu um grave acidente envolvendo uma máquina industrial, ferindo seriamente os dedos da mão direita. O próprio Iommi contou que o acidente aconteceu enquanto ele ainda mantinha seu emprego convencional.

 

O episódio poderia ter encerrado sua carreira como guitarrista.

 

Aconteceu exatamente o contrário.

 

Iommi desenvolveu adaptações para continuar tocando e acabou criando uma maneira de tocar que se tornou fundamental para a sonoridade do Black Sabbath.

 

A história é uma das maiores demonstrações de superação da história do rock.

 

Um acidente de trabalho.

 

Uma mão gravemente ferida.

 

E, em vez de desistir, Iommi criou uma nova maneira de tocar.

 

O resultado?

 

O nascimento de alguns dos riffs mais importantes da história do heavy metal.

 

E O HARD ROCK?

 

A realidade também aparece no hard rock.

 

Um bom exemplo de como músicos podem desenvolver carreiras paralelas é Ian Anderson, do Jethro Tull.

 

 

Além da música, Anderson construiu uma atividade empresarial ligada à criação de salmões, administrando uma operação de piscicultura.

 

Embora seja uma atividade empresarial e não exatamente um "emprego comum", o caso demonstra como artistas de rock podem desenvolver uma segunda carreira completamente distante dos palcos.

 

E isso não é necessariamente uma questão de necessidade financeira.

 

Para alguns músicos, ter outra atividade representa independência, realização pessoal ou simplesmente o desejo de não colocar toda a vida em uma única profissão.

 

O UNDERGROUND É ONDE ISSO FICA AINDA MAIS EVIDENTE

 

Se nos grandes nomes já encontramos exemplos impressionantes, no underground essa realidade é praticamente parte da cultura.

 

Músicos de death metal, black metal, thrash, hardcore, doom e outras vertentes frequentemente precisam conciliar a banda com trabalhos convencionais.

 

Um exemplo brasileiro é Fernanda Terra, baterista que passou por bandas de thrash metal, hardcore e punk, incluindo a Nervosa.

 

 

Além da música, Fernanda trabalhou como professora de bateria e designer.

 

É justamente esse tipo de história que muitas vezes passa despercebida.

 

Enquanto o público vê apenas os minutos em cima do palco, não vê as horas de trabalho que vieram antes.

 

Não vê o músico saindo do emprego direto para o ensaio.

 

Não vê o sujeito trabalhando durante a semana e pegando a estrada na sexta-feira.

 

Não vê o domingo inteiro dentro de uma van para tocar para 100, 200 ou 500 pessoas.

 

O METAL NÃO PAGA TODAS AS CONTAS — E TUDO BEM

 

Existe uma ideia equivocada de que, se uma banda não consegue viver exclusivamente da música, ela não alcançou sucesso.

 

Isso está muito longe da realidade.

 

A indústria musical é extremamente competitiva e apenas uma pequena parcela dos artistas consegue transformar a música em sua única fonte de renda.

 

Em 2025, por exemplo, discussões entre músicos continuavam mostrando como artistas de bandas estabelecidas e de cenas menores precisam manter outras atividades profissionais. A própria realidade de músicos independentes demonstra que viver exclusivamente de música continua sendo uma tarefa difícil.

 

E talvez isso seja ainda mais verdadeiro no metal.

 

Uma banda pode ter milhares de seguidores, lançar discos excelentes e tocar em festivais importantes e, mesmo assim, seus integrantes continuarem trabalhando em outras áreas.

 

Isso não diminui a banda.

 

Pelo contrário.

 

Mostra o tamanho da paixão necessária para continuar.

 

O VERDADEIRO HERÓI DO UNDERGROUND

 

Talvez o maior símbolo dessa realidade seja aquele músico que ninguém conhece.

 

O cara que acorda às 6 da manhã para trabalhar.

 

Passa oito ou nove horas no emprego.

 

Volta para casa.

 

Come alguma coisa.

 

Pega o instrumento.

 

Vai para o ensaio.

 

Chega em casa tarde.

 

Dorme poucas horas.

 

E no fim de semana pega a estrada para tocar.

 

Ele não tem motorista particular.

 

Não tem jatinho.

 

Não tem equipe gigantesca.

 

Às vezes, ele mesmo carrega o amplificador.

 

Às vezes, ele mesmo vende o merchandising.

 

Às vezes, ele mesmo dirige a van.

 

E, muitas vezes, ainda precisa trabalhar na segunda-feira.

 

Esse sujeito talvez nunca apareça na capa de uma grande revista.

 

Mas ele é a essência do underground.

 

DO EXPEDIENTE PARA O PALCO

 

Fenriz trabalhando nos Correios.

 

Greg Graffin dando aula de biologia.

 

Tomas Lindberg conciliando o death metal com a educação.

 

Steve Harris desenhando projetos antes de fundar o Iron Maiden.

 

Tony Iommi trabalhando em uma fábrica antes de transformar uma tragédia em inspiração.

 

Bruce Dickinson pilotando aviões entre uma turnê e outra.

 

Fernanda Terra ensinando bateria e trabalhando como designer.

 

São histórias muito diferentes, mas todas possuem algo em comum:

 

a música nunca precisou ser a única identidade dessas pessoas.

 

E talvez essa seja uma das grandes lições que o rock e o metal podem nos ensinar.

 

Você pode ter um emprego.

 

Pode ter uma família.

 

Pode ter responsabilidades.

 

Pode bater cartão.

 

Pode trabalhar em um escritório.

 

Pode dar aula.

 

Pode dirigir.

 

Pode ser engenheiro, professor, desenhista, técnico, designer ou qualquer outra coisa.

 

E ainda assim, quando chegar a hora...

 

pode subir no palco e tocar como se sua vida dependesse disso.

 

Porque o verdadeiro espírito do rock nunca foi abandonar a vida real.

 

Foi encontrar uma maneira de tornar a vida real muito mais interessante.

 

E talvez seja justamente por isso que o underground continua vivo.

 

De segunda a sexta, trabalhador.

 

No fim de semana, headbanger.

 

Sempre, músico.

 

LONGA VIDA AO ROCK, AO HEAVY METAL E AO UNDERGROUND!

 

Por Metalheads — www.metalheads.com.br

 

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